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REPORTAGEM ESPECIAL

Transtorno de Personalidade Borderline: você conhece?
Em uma abordagem jornalística profunda, o Repórter Especial apresenta, explica e detalha um transtorno ainda desconhecido da maioria dos brasileiros
Por Sthefani Alves com Edição de Wendell Rodrigues
14/08/2019 - 13h00 - Atualizado em 15/08/2019 - 14h51
Criação/Iverson Iório

Do céu ao inferno. Entre amor e ódio. Da euforia à tristeza profunda. Essas mudanças repentinas estão, entre as características de um distúrbio que, talvez, você nunca ouviu falar ou já confundiu com outras doenças, que tenham sintomas clínicos semelhantes. Mas, na verdade, essas emoções intensas e comportamentos exaltados são de quem vive com o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), responsável pela instabilidade nas relações interpessoais e atitudes desesperadas para evitar a sensação de abandono.

“A pessoa com Borderline convive com uma desregulação emocional que, a princípio, passa de uma idealização muito grande da pessoa amada, seja companheiro, familiares ou amigos, e que, devido a pequenas frustrações, se transforma em uma desvalorização extrema”, explica o psiquiatra Geison Lima Santana, doutor e pesquisador do núcleo de epidemiologias psiquiátrica da Universidade de São Paulo (USP).

Independe de classe social, idade ou gênero, o TPB afeta diversas áreas da vida. A equipe do Repórter Especial conversou com familiares e pessoas que convivem com o distúrbio. Nas entrevistas, eles relataram, com detalhes, a luta diária da difícil e desafiadora realidade.

 

“Tem dia que eu não quero ver ninguém”

 

Quem passa a conhecer o pastor paraibano Ivanchrist Ferreira, de 39 anos, pai de família, casado e com dois filhos, não imagina a sua luta constante contra os problemas do Borderline. A posição que ele tem na igreja em que frequenta, como líder, fortalece ainda mais uma imagem de imbatível, estabelecida para quem conduz cultos, diariamente, com mensagens motivacionais para centenas de pessoas. Mas poucos sabem da luta e o esforço para Ivanchrist estar ali.

 

O pastor Ivanchrist Ferreira só recebeu o diagnóstico do Transtorno de Personalidade Borderline no ano passado. Foto: Arquivo pessoal

 

"Tem dia que eu não quero ver ninguém, quero ficar só, me isolar e até chego a ficar agressivo, às vezes. Tem hora que estou feliz e com pouco tempo já não estou mais. Essa variação de humor acontece várias vezes ao dia. Ainda me pego com pensamentos do tipo: “não sou nada”, "que não valho nada”, “que não presto para ninguém”, conta Ivanchrist, sobre os seus episódios de crise.

 

Estatística

 

Sobre a prevalência do transtorno no Brasil, não há estatísticas. Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), na população mundial, é estimada em 1,6%, embora estudos mostrem que a proporção pode chegar a 5,9%. O que atrapalha o levantamento é que boa parte dos casos ficam sem o diagnóstico adequado. O que se sabe, é que nos ambulatórios de psiquiatria, representa 20% dos pacientes internados. E que de 8 a 10% dos indivíduos com esse tipo de transtorno cometem suicídio.

Formada recentemente em psicologia, uma advogada, de 43 anos, que prefere não se identificar, decidiu fazer mais uma graduação para se especializar na área e ampliar o conhecimento sobre o TPB. Com a nova formação, ela pode colaborar, ainda mais, com o tratamento de sua filha mais velha, hoje com 16 anos, que já apresentava as características da doença, desde os 3 anos de idade.

"Eu sempre notei o olhar dela diferente, disperso, é como se ela olhasse para você, mas na verdade não estava olhando, um olhar perdido. Ela era super estimulada, com cognição rápida, pensávamos que poderia ser superdotada, mas as habilidades sociais eram aquém", lembra. 

A família decidiu procurar ajuda logo cedo. “Levei ela ao psiquiatra pela primeira vez, aos 3 anos de idade”. Segundo o especialista, a cognição dela era, realmente, avançada, porém não havia necessidade de exames. “Ele pediu para acompanhar o desenvolvimento dela”, conta. Foi na escola, com ajuda dos professores, que a advogada confirmou a suspeita ao saber da dificuldade da menina para interagir com os colegas.

“Já com 9 anos, ela continuava sem saber lidar com as pessoas da mesma idade. O contato era maior com os colegas mais velhos, a partir de 14 anos. Ela era muito desenvolvida cognitivamente, mas pouco emocionalmente, é tanto que tirava 10 na prova, mesmo sem estudar”, relata a mãe.

 

Diagnóstico

 

Não existe exame específico, que permita o diagnóstico. A avaliação deve ser feita por um profissional da área, que possa analisar os sintomas. Especialista em saúde mental, com experiência de muitos anos no tratamento de pacientes com borderline, Aracelly Marques afirma que “é um trabalho denso, que exige muita dedicação, doação e muita capacitação”. Para ela, um dos grandes desafios é a busca do diagnóstico. “A maioria dos pacientes, que chega ao consultório, não tem diagnóstico. E a queixa principal é relacionada ao outro, que fica com a culpa por não ter correspondido a algo”.

 

A psicóloga Aracelly Marques destaca a importância de uma abordagem adequada para o tratamento ser efetivo. Foto: Arquivo pessoal

 

Na casa do pastor Ivanchrist, a falta de incentivo para procurar um profissional fez com que ele iniciasse o tratamento depois de muito tempo. “Na minha família sempre existiu o tabu de que psicólogo e psiquiatra eram para loucos. Por isso demorei a procurar ajuda”, lamenta. Quando começou a frequentar especialistas, confirmou o transtorno e começou, de fato, o tratamento. “Já no início das terapias, a psicóloga confirmou o transtorno e identificou que eu já apresentava traços desde a minha adolescência, mas não sabia”. Segundo a psicóloga, um dos motivos que pode ter colaborado com a demora na procura por um profissional “é que o diagnóstico torna-se mais difícil porque esse transtorno pode ser confundido com outros”.

 

Causas do transtorno

 

Da mesma forma como ocorre com outros transtornos de personalidade, não existe uma causa única para o Borderline. Os especialistas acreditam que existem fatores de risco, que colaboram com o aumento da vulnerabilidade, mas que nem sempre são determinantes para o surgimento do quadro.

“Existem pessoas, que já nascem com uma predisposição genética”, afirma o psiquiatra. E explica que um ambiente familiar desfavorável pode prejudicar bastante desde a infância: “Os familiares podem invalidar o processo quando chegam a humilhar os sentimentos da criança, negligenciando as suas necessidades emocionais, agindo com sarcasmo ou, simplesmente, não acolhendo como deveria”.

 

O psiquiatra Geison Lima tem experiência com pacientes que possuem Borderline há mais de 15 anos. Foto: Arquivo pessoal

 

Segundo Geison, “o tratamento é feito basicamente através de psicoterapia com algumas modalidades efetivas recomendadas cientificamente. O medicamento tem papel secundário para tratar alguns sintomas alvos”. Ele ainda alerta: “para o tratamento funcionar de forma efetiva, é necessário procurar um profissional com boa formação e experiência com esse tipo de paciente, porque o transtorno é bastante desafiador”.

Para a Aracelly Marques, as abordagens precisam ser adequadas ao quadro para se ter uma maior efetividade no tratamento. “Hoje a Terapia dos Esquemas é a que mais tem funcionado para os casos de Borderline. A abordagem trabalha com a premissa de que toda pessoa tem necessidades emocionais de autonomia, estabilidade, aceitação, liberdade para se expressar, entre outros esquemas, e isso pode ser treinado durante a psicoterapia. Esses pacientes, muitas vezes, privado de afeto, passam a reconhecer os esquemas e trabalhamos juntos”, explica a psicóloga.

 

Autossabotagem

 

Outra fase bastante comum do borderline é a autossabotagem. “Aos 9 anos, minha filha já não queria ir mais a escola. Ela se irritava muito com os colegas porque sofria bullying por tomar uma medicação forte, que a fazia dormir nas aulas e chorava muito. Pediu para não frequentar mais as terapias. Além de chorar muito, ficou bastante agressiva”, revelou a advogada.

Apesar do desenvolvimento cognitivo avançado, a menina passou a tirar notas baixas na escola. A mãe, emocionada, lembra de um episódio, que marcou para sempre a sua vida. Aos 12 anos, em semana de provas, a jovem estava desenhando na sala quando foi questionada sobre o motivo de não estar estudando para as provas. “Ela não reagiu e eu estranhei porque adolescentes geralmente falam alguma coisa com rebeldia típico da fase, mas segui para meu quarto. Minutos depois sai e fui em direção a sala, quando vi minha filha inclinada na varanda. Ela tinha cortado a tela de proteção e, por questões de segundos, consegui evitar que minha filha se jogasse do 7º andar”, relembra.

“Por mais um minuto, eu teria perdido a minha filha. Ela nunca havia feito nenhuma menção, indicação, de que isso poderia acontecer, nenhum tipo de ameaça verbal. Ela só dizia que estava muito cansada e eu atribuía a fase de adolescência. Foi por questões de minuto. Foi muito angustiante”, completa.

Para o pastor, os episódios de crise, na sua adolescência, também o permitiu passar por momentos como este. “Na minha juventude tinha alguns acontecidos, que eu achava que era depressão, no qual me isolava, tentei me matar duas vezes entre 18 e 23 anos. Tentava me machucar porque achava que ninguém me entendia”, lamenta.

 

Sensação de abandono e frustração

 

“Como há um medo grande de abandono ou rejeição, as pessoas com borderline fazem esforços desmedidos para segurar a pessoa e evitar o abandono. Esses esforços vão desde ataques agressivos muito mais consigo mesmo, até automotilações, cortes, queimaduras, pancadas, para deixar de sentir um vazio e sentimentos como frustração e abandono”, explica o psiquiatra, que atua em casos como esse há mais de 15 anos.

Segundo Geison Santana, é possível que a pessoa que tenha a doença conviva bem no meio e tenha uma melhor qualidade de vida. “Os riscos aumentados de suicídio, geralmente, são até os 30 anos e depois tende a diminuir, a pessoa consegue funcionar mais em sociedade e sofrer menos”, relata.

“Ter borderline é complicado, só quem tem, sabe. Contrariando as estatísticas do transtorno, eu estou perto dos 40 anos com uma família construída, que me entende, suporta e ajuda, tenho relações saudáveis com outras pessoas, mesmo com umas arranhadas, às vezes, mas as pessoas me entendem, sabem que é o transtorno falando”, conta. “Ter o transtorno para mim é uma possibilidade de ajudar outras pessoas a enxergar diferente e compreender a doença, mostrando que as pessoas podem ser inseridas no nosso meio e conviver bem. Devemos encorajar e eu tive amigos para isso”, pontua.

 

“Foram anos de terapia”

 

Para a advogada, a situação é muito mais difícil do que se possa imaginar. “Foram anos de terapia para eu conseguir falar agora. Antes eu só chorava. Olho para minha filha e é angustiante saber, é um luto mesmo porque nós mães temos expectativas para o filho”, afirma, emocionada. E completa: “Eu sinto uma frustração por ela. Saber de como é difícil para ela. Fazer tudo o que eu posso fazer e mesmo assim não ser suficiente. Ao mesmo tempo sinto muito orgulho da minha filha, pela luta diária contra ela mesmo. Ela tem alucinações, delírios e quando isso passa vem a angústia e ela mesmo pede pra falar com os médicos. Se eu fosse descrever minha filha, para mim ela é lutadora. Luta muito. Faz o que pode dentro da limitação”, confessa a mãe.

A adolescente está hoje com 16 anos e compreende o seu quadro de saúde. Segundo a mãe, ela cursava o 1º ano do ensino médio, mas decidiu sair da escola no ano passado e não consegue mais voltar, no momento. Apesar do tratamento com psiquiatra, psicóloga, oficinas de leitura e escrita, a jovem ainda precisa de vigilância 24 horas. “Não posso fechar os olhos. Tenho que ficar alerta. Fomos morar no primeiro andar, tirei todos os objetos que ela pudesse se ferir, inclusive seu próprio aparelho dentário. Ela tem a intenção de se ferir mesmo porque a dor física é menor do que a emocional. Não teve mais tentativa de suicídio, mas existem ameaças verbais até hoje, do tipo se acontecer algo com ela, eu serei a responsável”, desabafa a mãe.

Mesmo com a doença, a jovem sonha com um futuro promissor na carreira de escritora. “Ela gostava muito de ler, escrever e desenhar. Participa de clubes de leitura e escrita. Teve um miniconto aprovado, recentemente, para publicação e a alegria foi imensa”, comemora. “Minha filha olha para mim e diz: ‘mãe, eu sou escritora. Trabalho com isso’. Ela tem projetos, sonhos, planos. Quer tentar vestibular para se formar em letras. Ela entende que precisa enfrentar alguns obstáculos, como voltar para as aulas, estudar para o vestibular, mas está trabalhando isso. Ela tem planos e isso me conforta”, conta a mãe, esperançosa para que a filha consiga conviver com a doença e ter qualidade de vida.

 

Suporte familiar

 

A família tem um papel importante no controle do quadro. É necessário psicoeducar esse familiar sobre o que é o transtorno. “Eles precisam entender que aquele comportamento não é uma birra, mas a manifestação de uma doença que a pessoa apresenta. É uma forma também de apresentar as situações de riscos e acolher as necessidades emocionais desses parentes”, afirma o psiquiatra. “É preciso ensinar a família algumas técnicas para uma comunicação mais assertiva, identificar comportamentos de riscos, melhorar o convívio familiar e evitar o conflito”, completa.

 

O apoio da família do pastor Ivanchrist Ferreira teve papel fundamental no controle do transtorno. Foto: Arquivo pessoal

 

Para a advogada, não ter apoio da família é complicado. “Eles não aceitam o transtorno e acaba não contribuindo. Se afastam, mesmo morando no meu prédio. É muito difícil aceitar isso”, lamenta.

O pastor conta que o suporte dos familiares tem sido combustível diário para sua luta contra ele mesmo. “O apoio da minha família tem me ajudado a superar, me fortalecer e me entender cada vez mais. Eu já compreendi que a minha guerra é contra mim mesmo e pensar na minha família faz eu continuar”, declara.

 

Estigma ainda é grande na sociedade

 

Ainda há muito preconceito em volta da saúde mental. “Se é algo físico, se tem uma aceitação melhor. Mas quando é caso de Borderline, acham que é uma pessoa caprichosa, birrenta e não é isso. É uma pessoa que luta diariamente contra uma coisa que é muito difícil”, diz a advogada.

Para o pastor, o estigma “talvez venha de pessoas que não conhecem, entendem ou que nunca tenha passado por alguma perda grave que tenha causado sofrimento”.

Geilson Santana conta que há preconceito também nos profissionais que deveriam acolher esses pacientes. “Muitas vezes vem da própria comunidade de saúde ao considerá-los pacientes difíceis, manipuladores e que não melhoram com o tratamento, mas essa é uma visão muito ultrapassada. Estudos mostram que, com recursos mais modernos, eles aderem ao tratamento e têm resultados positivos”, afirma o psiquiatra.

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