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REPORTAGEM ESPECIAL

“Desenvolvi uma depressão e não sentia emoções”
Nessa reportagem especial, você vai entender como a ansiedade pode se transformar em uma doença e tornar os sentimentos excessivos e obsessivos
Por Maryellen Badarau (De João Pessoa) e Wendell Rodrigues (De Brasília)
15/08/2019 - 13h26 - Atualizado em 15/08/2019 - 17h18
Criação/Iverson Iório

Em 2016, aos 19 anos, ela saiu da casa da família, em Limoeiro do Norte, no Ceará, para estudar fisioterapia, em João Pessoa, capital da Paraíba. A distância não foi fácil. A saudade era só um dos problemas. A solidão virou companhia. A junção dessas circunstâncias gerou um cenário perigoso, que terminou em internação hospitalar. Esse é o resumo dos últimos três anos da vida da nossa personagem, que prefere não se identificar. Pouco tempo depois, ela recebeu o diagnóstico: ansiedade.

“Eu adoeci, não estava habituada a certas condições. Fui socorrida, fui internada. Também fiquei longe de amigas e dos meus vínculos e me sentia muito só. Tive uma piora, com falta de ar, vontade de vomitar, inquietação e vontade de sair correndo, quando soube que ia ficar internada”, descreve a jovem, hoje com 22 anos. Ela conta que ficava confusa e não interagia com as pessoas. “Desenvolvi, no início, uma depressão, uma apatia enorme. Não sentia as emoções. Ia para universidade e não interagia com ninguém, não concluía nenhuma atividade sozinha”, relata.

Foi quando decidiu procurar um médico. “Liguei para um deles e agendei uma consulta”, conta.

 

Ansiedade

 

A ansiedade pode ser normal, mas vira doença, quando os sentimentos se tornam excessivos, obsessivos e interferirem na vida cotidiana. Pessoas, que sofrem de distúrbios de ansiedade, sentem uma preocupação e medo extremos em situações simples da rotina, além de alguns sintomas físicos, o que atrapalha as atividades cotidianas. Hoje, a estudante tem algumas explicações para o que sentiu e viveu. “Algumas situações no seio familiar me prejudicaram bastante, pois não tive uma convivência equilibrada com os meus parentes, na infância. E ao longo do tempo, fui somatizando e resultou nisso”, revela a jovem.

O Psiquiatra Bruno Moura Lacerda afirma que a ansiedade aparece no momento, em que se ultrapassam os limites do estresse no corpo. Na avaliação dele, todo ser humano passa por um momento de ansiedade em alguma fase da vida. A questão é quando o problema persiste e traz prejuízos à saúde. “Surgem os sintomas de ansiedade generalizada, fobia social, algumas fobias específicas. A partir disso, é desencadeado problemas no sono, taquicardia, sufocamento, tremores e sudorese, entre outros. Esses sintomas comuns decorrem do medo excessivo de certas situações e de lugares”, explica o especialista.

 

O psiquiatra Bruno Moura relata situações que podem desencandear o Transtorno de Ansiedade. Foto: Arquivo pessoal.

 

Brasil é um país ansioso

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é hoje um dos países mais ansiosos do mundo. São 18,6 milhões de pessoas, que sofrem do transtorno mental, o equivalente a 9,3% da população. Segundo o relatório da OMS, publicado em 2018, o Brasil sofre de uma epidemia de ansiedade e as mulheres são as mais afetadas. No universo feminino, as jovens, mães com filhos recém-nascidos e idosas são as mais propensas a ansiedade. Do total, 5,1% das mulheres do país apresentam os sintomas do transtorno, que é considerado o mal do século. O índice masculino chega a 3,6%.

 “O mundo hoje está cada vez mais competitivo, busca-se melhorar a condição financeira, os jovens estudam mais horas do que o necessário, ultrapassam os limites e isso desencadeia os fatores ruins, para quem tem vulnerabilidade a doenças crônicas. Outro problema é o maior acesso a uso de substâncias, como drogas, café em excesso, automedicação e etc. Assim, é mais fácil ter estresse crônico, que pode desenvolver os transtornos mentais”, esclarece o psiquiatra Bruno Lacerda.

A grande competitividade social, profissional e acadêmica são alguns dos motivos para agravar a condição mental. Segundo o especialista, há pessoas, que tem maior propensão a desenvolver a ansiedade. Em outros casos, adquirem o transtorno por sua condição de vida desequilibrada. Quando isso acontece, é hora de ficar em alerta e procurar ajuda.

 

“Não conseguia nem levantar da cama”

 

A frase é de Jamile Fonseca, de 25 anos. Ela enfrentou uma dura batalha contra a ansiedade, durante o período que estudou Letras-Inglês, na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Longe da família, que mora em São Vicente Férrer, interior de Pernambuco, ela viveu (longos) três anos em Campina Grande, na Paraíba. Lá, viu seu desempenho acadêmico cair, de forma considerável. “Era um período péssimo. Havia cobrança da família, não tinha motivação para continuar e tive que trancar o curso. Não me sentia motivada, me sentia nervosa o tempo todo. Eu reprovava as cadeiras, não frequentava as aulas, não conseguia nem levantar da cama. Fui diagnosticada com humor depressivo, além da ansiedade generalizada e astrofobia, que é a fobia a trovões”, relatou.

 

Jamile Fonseca, encontrou em sua religião, uma maneira de conhecer a si mesma e ajudar o próximo. Foto: Arquivo pessoal

 

A cada dia, a jovem se abatia e se entristecia por não conseguir atingir as suas expectativas em relação ao seu novo curso superior, já que havia trancado a graduação de História na Universidade de Pernambuco (UPE). Ela passou por diversos profissionais. Muitas vezes, interrompia o tratamento, devido à falta de dinheiro. “Depois das crises de choro, falta de ar, eu me sentia muito triste”, lembra.

Em 2018, Jamile foi jubilada do curso de Letras-Inglês, resultado do mau desempenho nos estudos, e voltou para a casa da família, no interior pernambucano. Lá, concentrou-se em exercer atividades, que lhe davam prazer e propósito, como a caridade. Continuou sendo atendida por equipes especializadas, ao passo que está sendo cuidada por sua mãe e pessoas próximas.

 

Jamile em ação de caridade na cidade de Macaparana - PE. Foto: Arquivo pessoal

 

“Foquei em coisas que me ajudasse a melhorar, então primeiro passei a fazer meditação, para me conhecer melhor”, comenta.  E completa: “meu emocional já está melhor equilibrado, mesmo com os sintomas físicos, que se manifestam inconscientemente”.

 

Pensamento influencia as emoções

 

A psicóloga Débora Torres, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia, afirma que casos como o de Jamile são frequentes. Ela esclarece que a ansiedade é atribuída a um sentimento de insegurança, que desencadeia muitos sintomas, físicos e comportamentais. A profissional explica, que essa relação entre pensamento/sentimento/comportamento é o que rege toda a lógica do transtorno de ansiedade, já que a teoria parte da premissa de como o indivíduo enxerga a realidade ao seu redor. Dessa forma, detalha a especialista, algumas verdades geram impacto no paciente, que provocam sentimentos e comportamentos.

A psicóloga Débora Torres compartilha estratégias de enfrentamento ao Transtorno de Ansiedade. Foto: Arquivo pessoal

 

“Falo muito de projeto de vida e crenças. Nessa área de atuação acredita-se que o nosso pensamento influencia as emoções e o comportamento. Pensamos, sentimos e agimos. Às vezes, as pessoas pensam que precisam mudar a emoção, de forma aleatória, mas existe uns pensamentos, que não são superficiais, são crenças nucleares, são vistos como as verdades absolutas. Esses pensamentos são criados em casa, na escola, na adolescência, isso forma essas crenças. São verdades disfuncionais. A partir disso, sabemos que o que precisa ser mudado é a perspectiva da pessoa sobre o mundo”, explica a psicóloga.

 

Como combater a ansiedade?

 

O primeiro passo é o reconhecimento da condição mental. Nessa etapa é onde as pessoas mais resistem, por preconceito ou medo de demonstrar fraqueza. “Aceitar não significa, que você gosta, nem que você pediu por isso, mas que admite a existência, para poder fazer o tratamento”, pontua Débora.

O psiquiatra Bruno Lacerda concorda e enfatiza a necessidade das pessoas perceberem a importância do tratamento. Ele ressalta que o acompanhamento profissional passa por um estudo sobre o histórico do paciente. “Buscamos o histórico dos hábitos e tentamos reorganizar a vida da pessoa, equilibrando o lazer, o descanso, o sono e a alimentação”, explica. A medicação é indicada em alguns casos e o tratamento é multidisciplinar. “A acupuntura, atividade física, ioga, entre outros”, enumera.

Práticas recomendadas pelo Ministério da Saúde para manter uma boa qualidade de vida. Foto: Divulgação/Ministério da Saúde.

 

A primeira personagem, desta reportagem, iniciou o tratamento e a vida dela mudou. “Eu sempre acreditei que pudesse sair dessa situação, sempre tentei tirar forças de mim para correr atrás do que eu preciso”, desabafa.

 

Abordagem humanizada

 

O trabalho jornalístico ‘Transtornos nossos de cada dia’ é fruto de quatro semanas de apuração, produção, redação e edição. Nossas equipes, em Brasília e no Nordeste, ouviram pessoas, especialistas, analisaram estatísticas e reproduziram uma abordagem sensível e fiel. Nas redes sociais (Instagram, Facebook e Twitter) e no Canal do Youtube, nós publicamos depoimentos dos profissionais envolvidos nesse trabalho a fim de revelar os bastidores da cobertura. O Repórter Especial compreende que a humanização da abordagem é um diferencial na cobertura de temas, extremamente, relevantes para a sociedade brasileira.

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