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REPORTAGEM ESPECIAL

Acidente elétrico: um perigo invisível e silencioso
Em todo o Brasil, em 2018, foram 1.424 acidentes, de origem elétrica, que causaram mais de 600 mortes
Por Wendell Rodrigues (De Brasília) e Lucas Silva (De João Pessoa)
28/08/2019 - 15h50 - Atualizado em 29/08/2019 - 19h28
Criação/Janielle Ventura

Já faz alguns anos, mas João Pereira da Silva, de 53 anos, não esquece. Ele morava no Rio de Janeiro e foi fazer uma emenda em um fio. “Como não tinha alicate, fui apertar com o dente”, revela. Ele levou um choque. “Foi uma sensação muito ruim”, comenta. Ruim, perigosa e, em muitos casos, fatal.  

Pouco tempo depois, ele foi trocar a resistência do chuveiro. Preferiu não desligar o disjuntor. “Quando coloquei a resistência e empurrei para cima os contatos encostaram, me deu um suspiro na mão e todo o braço ficou dormente, é uma força muito grande, a sorte é que soltou”, reconhece.

                 

João Pereira da Silva sofreu choques elétricos e escapou por um milagre. Foto: Arquivo pessoal

 

Nem sempre, existe sorte. Em Brasília, a dona de casa Jucilene Cunha perdeu um amigo, vítima de um choque elétrico. O acidente foi num dia que a rua dela, na cidade estrutural, a 10km de Brasília, ficou sem energia. O vizinho foi tentar solucionar. “Ele foi mexer nos fios de alta tensão e morreu na hora”, lamenta.

Há pouco mais de dois meses, a Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel) lançou um anuário, que revelou algo preocupante: tem crescido o número de acidentes e mortes envolvendo energia elétrica.

 

Acidentes cresceram

Em 2018, foram 1.424 acidentes, de origem elétrica. Dessa quantidade, 836 foram causados por choques elétricos, 537 por incêndios devido à sobrecarga ou curto-circuito e 51 descargas atmosféricas (raio). O número foi 2,67% maior em comparação a 2017.

Em todo o ano passado, foram registradas 622 mortes. Foram cinco a menos, quando comparado a 2017. Por outro lado, a quantidade de vítimas fatais por incêndios originados por sobrecarga mais que dobrou: saiu de 30 casos no ano anterior para 61 em 2018.

 

Dados demonstram o aumento de acidentes elétricos no Brasil. Imagem: Criação/Janielle Ventura

 

Falta consciência

O técnico em eletrotécnica, Jonatas Souza, conta que o número de acidentes com eletricidade cresce por causa da falta de consciência. “As pessoas ainda não têm consciência dos riscos de um choque elétrico, o que acaba levando a ocorrência de muitos acidentes por pura imprudência”, explicou o profissional.

Ele recorda que já foi vítima de choque elétrico. “Você perde o controle dos músculos e após a descarga tudo que se sente é uma dormência e um formigamento no local do choque. Graças a Deus não cheguei a ficar inconsciente, embora tenha ficado bem desorientado”, completou Jonatas Souza. Se os profissionais não estão imunes, imagine quem não tem o mínimo de conhecimento.

 

O técnico em eletrotécnica, Jonatas Souza, afirma que as pessoas ainda não têm consciência dos riscos. Foto: arquivo pessoal

 

Sem qualificação

Às vezes, profissionais sem conhecimento geram problemas. Quem faz o alerta é o engenheiro eletricista, Thommas Kevin Sales. Ele destaca que a procura por profissionais mais baratos pode sair caro. “Este tipo de mão de obra sem qualificação pode trazer consigo, resumidamente, dois tipos de prejuízos: superdimensionamento e subdimensionado”, afirmou.

 

          

O engenheiro Thommas alerta sobre cuidados na hora de contratar um profissional. Foto: arquivo pessoal

 

O técnico em eletrotécnica, Jonatas Souza, também faz uma ressalva.  “Quem contrata pessoas sem formação comprovada pode até pagar mais barato, mas provavelmente o projeto elétrico será executado fora das normas”, alerta. No futuro, na avaliação dele, podem ocorrer danos imensos a instalação elétrica. “Pode ser um curto-circuito, um incêndio e até mesmo mortes”, afirma.

 

Informação ao público

O advogado Diógenes Dantas, especialista em direito do consumidor, ressalta que a falta de informação ao público, em geral, é a raiz de todos os problemas. “A própria cobrança tarifária nas contas de energia elétrica é incompreensível ao cidadão comum, imagine tratar de questões técnicas de instalação e manutenção da rede”, esclareceu.  

 

Diógenes Dantas destaca a necessidade de informar a população sobre redes de energia. Foto: arquivo pessoal.

 

Diógenes Dantas explica que a principal regulamentação das redes de baixa tensão é a NBR5410, elaborada pela Comissão de Estudo de Instalações Elétricas de Baixa Tensão, do Comitê Brasileiro de Eletricidade. “Essa norma foi baseada nas normas IEC da série IEC 364 - Electrical installations of building, e tem por missão orientar e complementar a legislação vigente, garantindo a proteção das edificações, pessoas e animais dos danos eventualmente causados pela instalação inadequada dos componentes da linha elétrica, como choques, efeitos térmicos, sobrecorrente, curto-circuito, etc”, complementou.

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